terça-feira, 31 de maio de 2011
Silêncio
sábado, 28 de maio de 2011
LUTO

Este Blog está de luto. Quem morreu? Não quem, mas o que (embora haja aqueles que o personificam): o amor. Indefeso, perdido e, portanto, da forma mais vil e cruel, ceifaram violentamente a essência vital do amor. Com ele, foram mortas todas as demais coisas. Morrem as lembranças de bons momentos, a esperança de um futuro que não se pode prever, o afeto nos momentos de alegria e o carinho nos momentos de tristeza. Também são enterrados com o amor o sorriso de reencontrar a pessoa amada após não mais que umas poucas horas de saudade, a coragem de enfrentar riscos incalculáveis para tocar os lábios do outro, e todas os demais detalhes que fazem a vida valer a pena.

Sem o amor, a existência não passa de um emaranhado de processos biológicos, concatenados para manter algo que se ousa chamar de vida, mas não é mais que um suceder rotineiro de uma realidade vegetativa, um ser moribundo aguardando a hora de voltar ao pó.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Insânia
terça-feira, 3 de maio de 2011
Elas
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Uma Crônica Sobre Pronomes
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Veneração

Os cabelos dela são, na verdade, finos fios de ouro banhados pelo próprio Olimpo em rios de luz e emolduram uma face tão linda que não se ousa, após contemplá-la, questionar a existência da Divindade. Os olhos de minha musa são tão profundos que não raras vezes me apanham por horas a fio. Sua pele é suave como a algodão recém-colhido, porém, quente comom a areia que se avoluma sob os pés descalços.
De qual sorte de palavras a posso adjetivar para que de mim se lembre ? Pois, ainda que mudo me torne e minha voz não tremule ao pronunciar seu nome, eis que meu silêncio se habilitará para dizer que a amo.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Se

Se você tivesse me acompanhado naquela homenagem, certamente eu seria o mais feliz homem sobre a Terra. Minhas mãos trêmulas ao receber o prestigiado prêmio estariam ainda mais vacilantes e o frio que me percorria a espinha ao aguardar a pronúncia do meu nome se transformaria em um gélido e apavorante soprar de ansiedade. Ah, como eu teria adorado isso! Saber que você estava na platéia faria com que todas as centenas e milhares de espectadores evaporassem e somente a sua atenção importasse. Ao invés das inúmeras palavras de agradecimento que tive de pronunciar, meu discurso seria simples e objetivo: “A razão de tudo isso é o amor que sinto por aquela mulher”. E esse amor, por si só, valeria mais do que qualquer tributo ou honradez que me dirigissem. Sentir-me-ia o mais nobre dos mortais, o mais excelso humano, sabendo que, ao final de tudo aquilo, nos seus braços eu encontraria o mais valioso de todos os prêmios. Mas isso apenas se você tivesse ido àquela homenagem...
Se você tivesse aceitado o meu convite, eu poderia dormir tão tranqüilo quanto a mais angelical criança. Não precisaria jantar tendo como companhia o vento ou como parceira de prosa apenas a luz do luar a entrar pela janela aberta. A comida teria tido sabor e a bebida teria me saciado. Embora, soubesse eu, não teria sido a comida ou a bebida que me fartara, mas o encontro de meus olhos com os seus. A um momento, eu poderia tocar sua mão sobre a mesa ou limpar o canto de seus lábios e estaria mais realizado que o mais rico dos homens. Por fim, eu poderia lhe render as palavras que ensaiei ao longo do dia ou poderia finalmente entregar a rosa que escolhi dentre as mais belas flores que pude encontrar. Mas isso apenas se você tivesse aceitado o meu convite...
Se você tivesse ido comigo, eu poderia apresentá-la aos meus amigos e eles veriam quão abençoado eu fui. Você, certamente, estaria deslumbrante e eu teria ciúmes do rapaz da mesa ao lado que perguntaria ao garçom se você vinha com freqüência àquele lugar. Durante a conversa, um amigo contaria as piores e mais sem-graça piadas que alguém já ouviu e todos nós riríamos com ele. Nesse momento, eu pararia de rir, pois estaria demasiado inquieto vendo o espetáculo do seu sorriso. Ele me arrebataria por alguns momentos daquele lugar e meus amigos teriam que me chamar a atenção após algum tempo, com o que eu ficaria aturdido e ligeiramente constrangido, fazendo você ficar enrubescida. E eu me apaixonaria ainda mais. Mas isso apenas se você tivesse ido comigo...
Entretanto, você não estava lá. Você não estava naquela festa, nem tampouco naquela homenagem. Você também não aceitou meu convite para jantar ou foi comigo e meus amigos rir em um lugar qualquer. E exatamente isso faz com que toda a nossa história comece com um “se”, uma incógnita, uma variável ignota. A única presença que realmente sinto é a que emana da sua ausência. Uma cadeira vazia. Um prato intocado. Uma rosa que murcha sobre a penteadeira, aguardando à míngua o destino que lhe prometeram: ser entregue a alguém por quem se nutre um profundo e imensurável amor. É essa a razão de existirem as rosas, não? Porém esta rosa, a sua rosa, não cumprirá seu mister poético. Lamentavelmente, sua flor penderá de tristeza e suas pétalas cairão dia a dia, como um calendário perfeito a contar os dias de sua ausência.
Somos seres humanos, gregários por natureza. Vivemos em sociedade porque não conseguimos – ou não queremos – viver isolados. Procuramos respostas complexas para a questão filosófica mais profunda de todas: por que existimos? Talvez, tenhamos passado tanto tempo buscando soluções igualmente complexas que nos esquecemos de atentar para aquela que há milhares de anos está à nossa frente: o amor. Quem sabe não é o amor a resposta que tanto almejávamos? Afinal, não é isso que nos impulsiona a querer crescer, a querer nos transformar em algo melhor do que somos? Será que toda a nossa rotina diária, nossos estudos, nossos compromissos inadiáveis, nossos afazeres intermináveis não são feitos e refeitos para permitir que possamos desfrutar do melhor da vida com as pessoas que amamos?
Sinto sua ausência perfurar minha alma como uma afiada adaga. Mais que o vazio à minha frente, dói-me a sua indiferença, pois ela demonstra que, não bastasse a iminente morte da rosa diante de mim, sua dona não a quer, dando de ombros ao trágico fim da condenada flor. Ora, que futuro há de ter um amor indiferente? Soa risível a pergunta, pois traz dois elementos antagônicos em sua essência. Amor e indiferença não podem se atrelar, pois são opostos entre si. Onde há amor, não pode haver indiferença, e onde há indiferença não pode haver amor. Assim, não haverá futuro, tão certo como não há presente ou nunca houve passado em um amor indiferente. Ele simplesmente nunca existiu.
Hoje, percebo que todas as juras e promessas de amor tecidas por seus lábios foram palavras vazias, despidas de conteúdo. Enganei-me por pensar que você estaria sempre ao meu lado, enganei-me por achar que você me amava mais que tudo, enganei-me por supor que você me tinha como alguém de notável importância. Ao contrário, descobri – da forma mais dolorosa – que sou apenas um item em sua rotina; item esse que, dia a dia, decresceu em relevância na ordem do seu coração. E é exatamente isso que dói. Aflige-me você, hoje, não dar a mínima para um sentimento que, até poucos dias atrás, fora vocacionado por sua boca como a mais bela coisa que já lhe acontecera.
Se você se importasse, dar-lhe-ia o mais puro e genuíno sentimento que pode brotar no coração de um homem. Sim, pois tenho – e sempre terei – por você um amor que dificilmente alguém mais poderia experimentar. Nem eu o poderia dar a outra pessoa, nem você receber de outro alguém. É uma pena que todo esse amor tenha que ser dilacerado pelo tempo, tal qual a murcha rosa enegrecida sobre a cômoda. Gostaria de expandi-lo aos confins do mundo, ao invés de sufocá-lo em meu coração. Queria que todo o universo fosse cúmplice desse sentimento, mas os astros do firmamento não podem compartilhar de algo que não transcende os limites do possível e confortável. Eles bem que gostariam, pois não tenho dúvidas que o propósito divino para nossas vidas passa por esse excelso gostar. E todo esse amor seria seu. Mas tudo isso apenas se você se importasse...
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Índigo

Quisera eu poder contemplar-te dia e noite! Qual um pássaro canoro romperia o dia a entronizar líricas celestiais à tua varanda e, até o ocaso, renderia a ti as mais belas notas que a natureza fora capaz de compor. Ao vir o crepúsculo, tornar-me-ia teu rouxinol e, a cada avançar da Lua, maiores seriam as minhas melodias a embalar teu sono. E, quando tu finalmente adormecesses, amada minha, seria tua sentinela para guardar teus sonhos mais secretos.
Aliás, quem me dera saber aonde te levam os sonhos! Gostaria de adentrar tua mente enquanto dormes e, junto a ti, percorrer os insondáveis caminhos traçados por teus desejos. Será que sonhas comigo? Que tolo! Somente um homem perdido em suas próprias paixões ousaria perguntar tal coisa. Deveras, não o posso evitar. Sou aquele de quem um dia te falaram “haverá um que te amará mais que tudo”. Fui preparado para ti e para ninguém mais, pois sem mim ou ti não há completude no outro. Inútil para mim seria procurar em braços estranhos o propósito do amor, pois ninguém há que me arrebate os sentidos com um olhar ou que me ofegue a respiração com um somente toque dos lábios.
Como ta descreverei, amada minha? Que palavras usarei para conformar as parcas linhas que escrevo à mais fiel descrição possível de teus indeléveis contornos? Cada vez que tento – inutilmente – retratar em letras tua inescrutável beleza, sinto-me tão impotente quanto o menor dos peixes ante a vastidão do oceano. Contudo, mesmo assim, ousarei uma vez mais testar minhas metáforas e colher do baú de meu espírito apaixonado algumas palavras que te possam descrever, amor meu. É verdade que tu, dona de minhas quimeras, ostentas o mais encantador sorriso que o sol já se atreveu banhar com sua luz, fazendo tudo e todos se aquietarem para ver-te sorrir. Teus olhos são pequeninos diamantes de índigo engastados em madrepérolas raras, enlevando tantos quantos sejam teus observadores. Até a lua aprimora seu espetáculo noturno apenas para atrair teu olhar. Safiras reluzentes que trazem inveja a Netuno! Assim são teus olhos, amada minha. Teus cabelos expressam a tecelagem perfeita de finos fios de ouro e veludo e contornam com maestria uma face tão bela quanto só o poderiam ser as mais dedicadas obras do Criador. Teus lábios são rubros como os grandes leques de corais ou como as rosas que apanho para ti, porém são suaves como o algodão colhido no primeiro amanhecer de julho. Tua pele é alva como o luar e quente como o verão, mas também é macia como o pêssego que no outono enche as planícies com o aroma de sua doçura. Teu corpo é todo feito de paixão e tudo que há em ti desperta em mim os desejos de um adolescente. Fiz-me recluso teu; mancípio e vassalo de um amor que até então desconhecia e do qual hoje não ouso esquivar.
Entretanto, densas trevas pairam sobre mim quando penso em ti. “Não podes dar morada a esse amor”, é o que dizem. “O universo todo conspira em teu desfavor”, é o adágio com que me procuram esmorecer. Inútil esforço! Intentam me aprisionar nas masmorras de meus próprios sonhos. Tolos! Mal sabem que com isso tão-somente mais me atrelam a ti. De nada valem os ideais que me tentam infirmar; são valores desprovidos de conteúdo, pois lhes falta a substância do amor. Qual ideologia humana fará sucumbir o sentimento que pulsa em mim ou que compêndio dogmático poderá podar os frutos de meu afeto? Contudo, ainda assim, fizeram em pedaços as trovas, as canções e os poemas a bem de um ideal humano que, como tal, jamais poderá compreender os mistérios do amor, pois este aflui do que é divino. Danem-se todos!
Nunca desistirei de ti. Por mais que irrompam exércitos descomunais diante de mim ou ainda que cavalguem mil tropas em minha direção, não hesitarei. Para cada tijolo que for construído com o intento de me separar de ti, erguerei quatro na edificação onde guardo oculta a chave do meu amor. Descer até o inferno e regressar por ti? Irei sem pestanejar. Renegar os auspícios de minha liberdade para te entregar um coração em que pulsa apenas o teu nome? É-me tarefa fácil. Não coxearei diante da tormenta, nem trepidarei a sobrancelha perante o mau agouro. Por ti – e somente por ti – fincarei nos confins da Terra a insígnia que me foi entregue pela própria Divindade com apenas uma admoestação: cuide dela com a própria vida. Desnecessário pedido. Cuido da dona de meus sonhos com a devoção que só se encontra nos arrebatados pelo amor ou nos lunáticos. E se a morte chegar antes que eu te veja regressar aos meus braços, então que venha o pestilento fim! Certamente, melhores me serão as vivas luzes do além que a escuridão mortificada do viver sem ti.
Quando decido adormecer, é a ti que minha consciência se achega por último antes de embarcar rumo ao universo dos sonhos. E, ao acordar, o primeiro raio de luz a ganhar meus olhos não é tão veloz quanto a tua imagem em meu pensamento. Passei dias e dias brigando comigo mesmo, questionando minha sanidade e teimando contra meus temores. Ousei perguntar: “Senhor, que é isso?”, aflito pela resposta do Alto e, talvez, pela confirmação de que me precipitei por um túnel de loucura. “É o amor que bateu à sua porta, filho meu”, ouço tão claro em minha mente que já se torna difícil distinguir se estou desperto ou em devaneio. Deveras, isso pouco importa. Contigo, amada minha, qualquer momento acordado se transmuda em sonho e qualquer sonho é tangível como a realidade diante de meus olhos.
sábado, 26 de dezembro de 2009
Apenas Um Desabafo
O amor é, sem dúvida, a mais besta invenção da humanidade. Nenhuma enfermidade é capaz de causar tamanha debilidade em um ser humano e nenhuma força conhecida pode imprimir feições tão abobalhadas quanto aquelas vistas no rosto de um pobre apaixonado. Por que aceitamos passivamente que esse vilão silencioso nos ataque e, sem reação de nossa parte, roube-nos o sono, a fome e os pensamentos?
Coisa complicada e estranha! Mais complicada que as letras das músicas do Djavan e mais estranha que os penteados da Elke Maravilha! Não é possível entender o que se passa nas entrelinhas do amor, de modo que somos subjugados por algo que não conhecemos inteiramente. É como estar defecando no impoluto resguardo do lar e, de repente, ser abatido por uma machadinha indígena que voou pela janela do banheiro. Você não esperava a porcaria da machadinha, assim como não esperava que o amor colocasse suas garras em você! E o pior de tudo: sem pedir sua permissão! Ele chega sem aviso prévio.
- Eh, com licença... O senhor é o Sr. Alves? Pois bem, eu sou o Amor e vim avisá-lo que hoje, na fila do supermercado, o senhor se apaixonará pela moça que vai estar logo à sua frente, carregando um litro de leite e uma embalagem de peixe congelado.
Não! Não há nada disso! Se pelo menos assim fosse, o pobre Sr. Alves poderia aparar os pêlos do nariz ou colocar uma camisa mais descontraída antes de ir ao supermercado, mas não! Não é assim! E lá vai o Sr. Alves, vestindo uma camisa verde-vômito comprada na liquidação da caridade e com o nariz parecendo um escovão... Resultado: não há a menor chance da moça da posta de peixe olhar para o pobre homem, razão pela qual ele passará dias e dias pensando em filés de merluza e coalhada. Pobre coitado!
O amor é um brincalhão! Escolhe a hora mais inapropriada para aparecer. No meu caso, ele resolveu aparecer bem nos meses que antecedem a entrega do trabalho de conclusão de curso na faculdade. Dúvida cruel: concentro-me nos olhos azulados de minha deusa imaculada ou na porcaria da natureza filosófica da sanção penal? Ultimamente, os olhos estão vencendo, e com vantagem!
Também, não é para menos: ela, a moça que disputa minha mente com a pilha de livros que peguei da biblioteca, é dona do mais gracioso sorriso que meus olhos já viram. Quando seus lábios se abrem, deixando duas covinhas angelicais nas bochechas, parece-me que todo o universo se aquieta para contemplar aquela visão. De fato, pois não ouço ou percebo mais nada que seja estranho àquele sorriso divinamente escultado. E o que posso falar de seus olhos? Tão azuis e brilhantes quanto os lagos que riscam a terra sob o sol. Sim, assim são os olhos de minha amada, banhados em índigo e escondidos por detrás de pequenas janelas vitrais, como as peças raras dos museus. Duas perfeitas réplicas de Netuno que me absorvem tal qual um menino maravilhado ao contemplar a imensidão do Universo. Sua pele é tão branca e macia como a neve que brinca nos rostos das crianças quando chega o inverno, mas seu toque é tão quente quanto o roçar da lã felpuda. Seus lábios são vermelhos, como vermelha é a lava que corre dos vulcões ou como os grandes leques de corais, mas também são suaves como nuvens num céu de brigadeiro. Os cabelos dela têm a cor das amêndoas algarvienses recém-colhidas banhadas no mel e ondulam por seu rosto como a maré a emoldurar as praias. Tem um rosto tão meigo e delicado quanto o de uma criança, mas o corpo esbelto e maduro de uma mulher pronta. Por óbvio, ela atrai tantos olhares quantos sejam os presentes onde passa, então, por que o meu haveria de ser o mais especial? Por que o meu olhar deveria ser aquele no qual ela aportaria seus belos olhos azulados e por que haveria de ser no meu abraço que ela encontraria o acalento almejado?
Vêem só? É isso que o amor nos faz! Este vagabundo sem vergonha nos faz inventar metáforas ultra-criativas e perguntar coisas sem o menos sentido para, com isso, afundar-nos ainda mais nesse lamaçal embebido de alfazema que é a paixão...
Prova disso é que estou sentado há várias horas na frente do computador e tudo o que meus dedos conseguem digitar são as palavras que se lêem nesse texto. Nada de monografia... Mas também, para quê? Para que me formar se meu futuro sem ela não vale nem uma moeda furada por um balaço? Que mamãe não me ouça!
Enfim, o que eu quero dizer nas linhas desse texto é que não há nada mais estranho do que esse tal de amor! Penso que o amor nada mais é do que um subterfúgio que a mente humana encontrou para fazer a vida valer a pena. Puxa, se isso for verdade, então, que triste é viver sem amar, não?
Mais estranho do que o próprio amor é o momento em que ele acontece. Digo, alguém saberia responder qual o exato momento em que esse vilão devorador de corações se apossou de sua frágil alma? Seria possível cronometrar o instante em que nos tornamos reféns do amor?
- Calma, só um minuto... Vai acontecer a qualquer momento, estou dizendo.
- Você tem certeza?
- Claro que tenho. Alguma vez já falhei com esse troço? Olha ele lá... Ela vai passar daqui a pouco e trocar duas palavras com ele... Já preparei tudo, pode confiar.
- Veja lá, hein!
- Confie em mim. Olha lá... Aí vem ela. Vamos ver... Cinco... Quatro... Três... Dois... Um... Pronto! Olha lá, não falei! Cara de peixe abestalhado... bem na hora, não?
- Puxa! Você está ficando realmente bom nisso!
O amor é, por vezes, um herói que nos salva da solidão, ou um vilão, que nos afunda num estado catatônico de autocomiseração. “Por que ela não me quer? Por que ela não me ama?”. Sei lá! O amor não se incute à força, não se impinge à espada. Deve frutificar de forma serena e silente, como a semente que germina perante o longânimo céu.
E, por falar em céu, lembro-me mais uma vez dos olhos banhados em anil que me cativam sem escape. Resignado aos devaneios que estão prestes a recomeçar, tomo uma sábia decisão: amanhã continuo a monografia...


