terça-feira, 31 de maio de 2011

Silêncio


Na vasta planície em que cinzas cadavéricas tomam o lugar das nuvens e o horizonte é delineado não pelo alcance da vista, mas pela densidade de pesadelos distantes, permaneço imoto, perplexo pela realidade que diante de mim tomou forma. Não há qualquer doce voz a me falar, nem ouvidos aptos a me ouvir, tampouco ouço o som de minha própria respiração. O silêncio da vereda traduz o desterro em que se prostrou minha alma.

Desconheço onde estou, nem como vim aqui parar. Tudo que sei é que um manto de trevas me engolfou, forrando meus olhos numa fração de segundo. Ao retomar a consciência – ou o que eu cria sê-la – vi-me só, deixado à míngua numa terra estrangeira, com uma estranha e ainda inidentificável dor. Preocupado, apalpo o peito sem nada ali encontrar.

Ao olhar para o chão, contemplo, lacerados, pedaços de carne decomposta que julgo serem do coração extirpado de meu corpo. Em seu lugar, apenas um buraco opaco, revelando que ali já pulsara a vida.

Onde estou, alma minha? Para onde me trouxeste desta vez? Seria aqui o longínquo lugar que me prometera minha amada? Mas, se o for, por que em nada se parece com o florido amanhã que acreditei adquirir dando em troca todo o meu amor? E onde está o resplendor de felicidade que via brilhar nos olhos caramelados de minha doce musa? Foi tudo levado? Para onde? Por quem? Por quê?

Sinto um agudo cravar de adagas afiadas em minha mente. Percebo, na verdade, que se trata não de lâminas, mas de lampejos de memória tentando ilustrar o caminho que me conduziu da consciência à prostração. No entanto, tudo que vejo são duas pedras brilhantes como o sol, lineares, suspensas no vazio.

Aproveito o aquietar da dor para vasculhar o lugar à minha frente. Tento dar um passo, mas noto que meus pés não deixam o chão, fincados que foram ao solo com grandes e vigorosos pregos. Não sinto sua dor. A única dor em mim reside no vazio deixado pelo coração que jaz em frações disformes ao meu lado.

Outra ferroada. Dessa vez mais forte. Minha cabeça parece explodir. Os fragmentos de minha memória trazem finos fios dourados que balançam divertidamente de um lado para outro. Consigo ouvir alguns sons incompreensíveis e uma voz que me é familiar. Esforço-me um pouco mais para lembrar, contudo, a dor é tão grande que uma lágrima desce rapidamente por meu rosto. Toco-a e noto sangue em minhas mãos.

Tudo nesse lugar lembra o luto. Respira-se o desprezo. Não há absolutamente nada, a não ser o taciturno silêncio mortificado que deglute qualquer esperança.

Alma minha, para onde me trouxeste? E onde está minha amada? Se estiver aqui, em algum lugar, preciso encontrá-la, pô-la a salvo em meio a esse cenário de desolação e miséria.

O silêncio é tão profundo que o sinto apalpar meu corpo. É como se lhe fosse atribuída densidade suficiente para romper seus limites imateriais e ganhar o mundo exterior. Não se escuta nada. Bato palmas, grito com toda parca força que encontro, mas não se produz som algum. Tudo está sem cor, sem som, sem brilho e sem sentido.

Dessa vez, a dor é tão grande que caio sobre meus joelhos, dobrando-os aos pés cravados no chão. Os filamentos luminosos de minha memória, finalmente, revelam-me a trilha seguida por ti, alma minha, até este desalentado nada.

As pedras brilhantes se transmudam nos olhos de minha amada, acastanhados como amêndoas algarvienses, grandes e belos como júpiter. Logo percebo, sem dificuldade, que os finos fios dourados eram, na verdade, os cabelos de minha musa, convidados a dançar pelo vento, brincando de emoldurar um rosto tão lindo quanto somente o poderia ser a mais terna das criações divinas. Sem demora, consigo divisar seus lábios, vermelhos como os grandes leques de coral e macios como flocos de algodão. Sua pele é tão quente e suave que só seria possível compará-la ao calor da alvorada. Tudo nela é perfeito. Tudo nela foi divinamente arquitetado. Sua voz é doce, como se cada palavra fosse uma miscelânea de acordes angelicais.

Mas, o que vejo no rosto de minha amada? O que ouço sair de seus lábios de mel? Alma minha, explica-me o que acontece! Rápido! Ouço a canora voz de minha musa pronunciar palavras cruéis! Brincas comigo, alma minha? Que zombeteira piada é esta que me pregaste? Onde está a realidade para que com ela possa apagar o que acabo de ver e ouvir? Traga-me nesse momento a exatidão da verdade, pois somente por meio dela poderei fugir desse ludíbrio que preparaste para mim, alma minha!

Não. Não podes falar sério! Esta é a verdade? São verdadeiros os fatos que diante de mim se amontoam como montanhas sombrias? E, por que, abruptamente, não sinto mais o domínio de meu corpo. Tudo gira ao meu redor. A imagem de minha amada orbita em meu desvario, desfigurando e confundindo tudo. De repente, um jorro de escuridão.

Silêncio.

Abro novamente os olhos. Estou neste lugar assolado pela própria Desgraça.

Então, eis que tudo se há revelado, alma minha! Esta é a razão de meu infortúnio, afinal? Minha musa. Não posso tê-la. Não poderei mais tocá-la. O amor que inspirava meus versos se esvaiu como a areia procura as frestas da mão  de uma criança. Subitamente, tomaram-me tudo. Sem que eu pudesse combater – e tu sabes que eu o faria, alma minha; com o fervor de um espartano, eu lutaria por minha amada –, arrebataram de meus braços a mulher que suavizou minhas perturbações com sua voz aveludada. Com tal assalto covarde e inopino, sem resistência, sobrou-me apenas o silêncio.

Outrora, podia ouvir os risos impolutos de minha adorada, o crepitar da fogueira que faiscava de seus olhos e, principalmente, a cala eloqüente do descanso de um no ombro de outro.

Entretanto, depois de todas as juras que mantiveram viva a esperança no futuro incerto, e de todos os versos que embalaram seu sono, e de todas as palavras inquietas que não se agüentavam nos lábios, o que resta disso tudo é um silêncio cadavérico, uma mórbida e inerte calmaria. O poeta está morto. Deixou em testamento a sua dor para os que dela quiserem partilhar.

A alegria do poeta morreu com seu dono. Já não mais serve para inspirar os casais, nem tampouco para contagiar os amigos do poeta. O sonho acabou. Em seu lugar ficou o silêncio dos dormentes. Nele repousam apenas aqueles para os quais o amor deixou de ser o objeto de sua arte, endeusado por sua própria natureza, e passou a mera falácia torpe, subterfúgio de que se valem os tolos para justificar sua tolice.

O que fazer? Quedarei fincado nos confins da agonia para todo o sempre ou até que tu me libertes, alma minha? Liberta-me! Cobra teu preço, mas liberta-me. Teu pagamento será minha dor; meu pranto, teu soldo. Terás o que veio buscar, alma minha! Chorarei até que a última gota de lágrima leve embora a nódoa que transmudou em cemitério meu coração e, assim, terás embolsado o custo do amor.

Contudo, saiba que não quedarei inerte ao completar o Gulag. Outra vez, permitir-me-ei crer na soberania do amor. Recolherei os recortes talhados de meu coração e reconstruirei minha jornada. Pois que é a vida sem o amor, alma minha? Que é a realidade humana sem a expectativa de que vale a pena amar e ser amado? Sem o amor, a existência não passa de um emaranhado de processos biológicos, concatenados para manter algo que se ousa chamar de vida, mas não é mais que um suceder rotineiro de uma realidade vegetativa, um ser moribundo aguardando a hora de voltar ao pó. E, no pó, nada vive, nada sobrevive, nada recrudesce. Apenas o apático, impassível e indiferente silêncio.

sábado, 28 de maio de 2011

LUTO




Este Blog está de luto. Quem morreu? Não quem, mas o que (embora haja aqueles que o personificam): o amor. Indefeso, perdido e, portanto, da forma mais vil e cruel, ceifaram violentamente a essência vital do amor. Com ele, foram mortas todas as demais coisas. Morrem as lembranças de bons momentos, a esperança de um futuro que não se pode prever, o afeto nos momentos de alegria e o carinho nos momentos de tristeza. Também são enterrados com o amor o sorriso de reencontrar a pessoa amada após não mais que umas poucas horas de saudade, a coragem de enfrentar riscos incalculáveis para tocar os lábios do outro, e todas os demais detalhes que fazem a vida valer a pena.




Sem o amor, a existência não passa de um emaranhado de processos biológicos, concatenados para manter algo que se ousa chamar de vida, mas não é mais que um suceder rotineiro de uma realidade vegetativa, um ser moribundo aguardando a hora de voltar ao pó.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Insânia

Inquieta alma dentro de mim, acaso podes me aclarar o motivo deste infortúnio? Podes me elucidar o porquê de o ar, a água e todas as coisas terem perdido, repentinamente, a beleza e o encanto? Ou, ainda, a razão de um repentino luto se ter irrompido em minhas emoções? Sinto-me cada dia e cada vez mais perdido num redemoinho em que imagens translúcidas, de contornos disformes e cores incompreensíveis põem em xeque minha acuidade. Remotamente, fui abatido pelos insondáveis tentáculos da loucura. Insondáveis, sim, pois para sondá-los seria necessário um quinhão mínimo de lucidez e já receio tê-la perdido também. Podes, então, auxiliar-me nesta empreitada ingrata, auscultando a ti própria para me responder o motivo de minhas intempéries? Temo que não, pois nem os maiores especialistas que visitei puderam me desenlouquecer. Que dirás tu, alma minha, pobre coparticipante impotente desse desvario que num súbito invadiu e parasitou os confins de minhas ideias.
Ainda assim, permita-me te esquadrinhar uma vez mais, alma minha. Deixe-me ir às ignoradas e misteriosas fronteiras do autoconhecimento para, quem sabe, lembrar-me do sêmen desta loucura que me entorpece, esta ausência de lucidez que criou inesperadas raízes e germinou inospitamente em ti, deixando-lhe meros lampejos falhos de uma sanidade distante.
Esforça-te mais, alma minha! Conjura forças de longínquos horizontes para dar-me uma lembrança, uma recordação, uma imagem que seja do estopim de meu desatino. Bom trabalho, alma minha! A recompensa de tamanho esforço é um semblante desfigurado que, aos poucos, ganha definição à minha frente. As fagulhas iluminadas de meu caleidoscópio começam a ganhar sentido para desvelar o fundamento da perturbação
Ah, sim! Posso vê-la! Consigo mirar seus olhos. Tem a cor do fruto da castanheira, caramelados, reluzentes como diamantes lapidados pelo sol. De sua cabeça pendem finos fios de ouro e seus lábios são quentes e doces como mel recém-extraído. Deles, nasce um sorriso apto a me fazer duvidar da própria existência de todo o restante da Criação e mesmo de minha realidade. Sua pele tem a textura do veludo e a delicadeza da seda. Tudo nela é tão perfeito quanto o pode ser a própria perfeição. Diante dela as rosas tem vergonha de nascer e a lua se esconde pelo ultraje de não lhe chegar à altura. Perto dela, todo o restante perde a cor, o sabor, o sentido.
É esta perda abrupta de sentido que me tomou os últimos resquícios de sobriedade, levando-me a passos largos para a irremediável amência e me conduzindo como resignado paciente da decrepitude. Que posso fazer agora, alma minha, a não ser me consolar e sujeitar ao duro destino que foi escrito para aqueles que ousam contemplar sua etérea beleza?
Estás a me dizer algo, alma minha? Apresentas-me uma alternativa segundo a qual posso evitar o fim delirante que tão próximo está de mim quanto a morte de um moribundo? E qual opção seria essa, que me poderia disjuntar do mau desígnio da doidice? Achega-te, alma minha, e fala baixinho à minha mente, de modo que apenas eu saiba o que posso fazer para não mais orbitar os domínios de Dionísio e seu cortejo enlouquecido.
O quê? Repita, alma minha. Não! Não podes falar seriamente. Tens de estar a me pregar jocosa artimanha. O que me dizes não pode ser expressão da verdade, senão uma peça arquitetada habilmente por um sádico construtor! Consulta os oráculos, atenta para os astros decifra a esfinge, por favor, para me trazeres outra resposta, pois o que dizes não é alternativa digna de se cogitar.
Quedar-me sem ela, abandonar sua imagem é tão terrível que pronunciá-lo me enegrece o espírito. Abrir mão do pensamento que me conduz a ela me é tão possível quanto o seria dar despedida ao ar como a um transitório viajante.
Porém, compreendo o que dizes. Não há alternativa. É isso ou a loucura insanável. Já estão lançadas as predileções possíveis: viver sem ela, obstando que seus olhos amadeirados me encarem novamente, ou entregar-me à vã existência em que fora expulsa qualquer racionalidade, dando lugar apenas à imagem transcendental de minha amada que se esboça entre uma e outra centelha efêmera.
Vem! Acompanha-me, alma minha. Dá-me a mão, pois nosso destino já fora traçado dede o primeiro momento em que a vimos. Continuemos nossa marcha em direção à irremissível insanidade que nos aguarda tão efusivamente. Deixemo-la abocanhar o último resíduo coeso de nossa mente para nos dar as boas-vindas, quem sabe com uma oferenda ensandecida, quem sabe com palmas nas mãos, quem sabe com um punhado de mel tão castanho como o são os olhos de minha amada. 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Elas

O cérebro feminino é algo humanamente inatingível. Mesmo as mulheres devem ter alguma dificuldade para entenderem a si. Sim, pois em que mundo paralelo a frase “acho que esta calça não está servindo”, na verdade, trazia implícita a expressão “compre-me flores”? Para nós, homens, frases objetivas tem um sentido objetivo. A resposta “sim” à pergunta “está tudo bem?” indica que a conversa sobre aquele assunto terminou (se bem que um “não” poderia indicar a mesma coisa, dependendo do quão interessante esteja o jogo de futebol). Não há outra interpretação possível diante do monossílabo “não” seguido à pergunta “precisa de algo?” do que aquela segundo a qual você não precisa de nenhuma providência imediata a ser tomada por nós.
E o que dizer do sexto sentido feminino, uma percepção quase metafísica que as mulheres desenvolveram ao longo de milhares de anos da jornada evolutiva? Alguns chamam de intuição. Eu prefiro chama-lo de inquisição. Basta ela levantar uma suspeita, uma ideiazinha criada nos entraves de algum neurônio ciumento e qualquer atitude despercebida, qualquer mínimo indício de anormalidade fará com que você, caro amigo, vá parar na masmorra fétida de um castelo medieval, sendo interrogado em função de uma suposta olhadela herege – absolutamente inofensiva – para as ancas alheias.
- Você olhou para a bunda dela, não foi?
- Não! Juro que não!
- Admita! Seus olhos ficaram 0,75 segundos direcionados para as nádegas daquela mulher!
- Quê? Como assim 0,75 segundos? Por acaso você contou?
- Então você admite que olhou?
- Não! Não estou admitindo nada! Não olhei para ela, eu juro!
- Então prove!
- Como posso provar que não olhei?
- Então não pode provar, certo? É CUL-PA-DO! Levem-no para a fogueira!
Não adianta apelar sequer para a Divindade, meu chapa! A sentença proferida pela mente de uma mulher é tão recorrível quanto a decisão de pular do alto de um prédio quando você já está a meio metro do chão. Não tem volta. Estudos recentes mostram que algumas centenas de pedidos de perdão por seja-lá-o-que-ela-acha-que-você-tenha-feito e uma dúzia de rosas costumam atenuar a pena.
Há também o feeling feminino, desenvolvido por elas e esboçado em leis naturais por um tal de Murphy, que traz como consequência inevitável de um relacionamento o fato de as ligações mais importantes (leia-se: aquelas realizadas em épocas de TPM) serem efetuadas nos quinze minutos finais dos jogos mais importantes da temporada.
A verdade é que não podemos viver sem elas. Não apenas pela óbvia evidência biológica, mas por uma necessidade humana básica (Não, seus impuros! Não estou me referindo ao coito!). Precisamos de afeto, do olhar meigo que só uma mulher é capaz de nos ofertar, do colo quente no sofá da sala (mesmo que seja para ver o jogo do Mengão na TV).
Somos valentões, poderosos e truculentos descendentes do macho-alfa. Nossos ancestrais primitivos matavam animais ferozes para comer no jantar (sempre lembro das historinhas do Piteco quando penso nisso), mas, mesmo assim, nada conforta mais do que o abraço da mulher amada após um longo dia de trabalho.
Chegar exausto, e saber que ela, também exausta (viva a isonomia!), esteve ansiosa por aquele momento em que vocês dois, diferentes espécimes do gênero humano, encontrarão nos braços um do outro o conforto para no dia seguinte enfrentar as mesmas e outras maiores dificuldades, certamente faz tudo valer a pena.
Decifrar o genoma humano é brincadeira de criança perto da missão de se desvendar a mente feminina. Até o momento, a única coisa que se sabe é que ela funciona melhor quando se lhe oferecem chocolates e carinho. 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma Crônica Sobre Pronomes


Não sei se alguém vai ler isso um dia. É bem provável que não, pois o texto não é lá uma brastemp. Respeitosamente, isso não me incomoda, já que escrevi motivado mais por uma necessidade de “botar pra fora” esse sentimento, como uma comida mal digerida (credo!), do que por uma vontade oculta de que outras pessoas lessem meus dilemas pessoais.

Mas pode continuar lendo, filho...

Preparei-me para um dia normal, mas não foi. Ao contrário,  foi um daqueles dias nos quais você crê que o mundo inteiro conspirou para que as coisas acontecessem de uma determinada maneira... Só para depois rir na sua cara! Planejei o dia de forma que a minha vidinha continuasse seguindo o seu sacrossanto ritual de todas as quartas-feiras. Por que adulterar meu trecho arquitetado com tanto esmero? Pois foi o que fiz, maculei meu projeto. E cá estou eu. O dia já se foi e eu estou sentado em frente ao PC, ouvindo “It’s a heartache”, da Bonnie Tyler, e usando meu computador como psicólogo. Como está saltando às claras, o motivo dessa turbulência de emoções é sentimental. E a força propulsora de tal desabafo, por óbvio, é uma mulher. Mas não pensem  que é uma mulher qualquer. Não! De forma alguma!... É “Ela”. Sim, “Ela”, a razão de meus tormentos interiores, do desabafo que o Dr. Computador é obrigado a ouvir, do monte de besteira que eu escrevo nesse texto.

Quanto drama por causa de uma garota! Não, não era qualquer garota. Era “Ela”... Conhecemo-nos no trabalho e nos tornamos amigos, grandes amigos. Depois de um tempo,  porém, nossas vidas seguiram rumos diferentes. Na manhã de hoje, despretensiosamente, comecei a pôr em prática minha rotina esmeradamente traçada. Por uma coincidência qualquer, acabei passando próximo ao local em que ela trabalha. Resultado: não resisti ao impulso neurônico que me alertava para a catástrofe de minha decisão e resolvi vê-la.

Valha-me Deus! Ela estava extraordinariamente linda. Os belos cabelos longos e lisos caíam por sobre os ombros, deixando à mostra um fino rosto cuidadosamente esculpido pelo Criador. A silhueta esbelta ressaltava a beleza de uma menina-mulher encantadora. O rosto não era de um anjo, pois duvido que os anjos possam ter rostos tão belos. Engraçado... Não consigo descrever o rosto dela... Talvez por falta de palavras, talvez porque Deus o tenha criado de tal forma que se faz impossível qualquer descrição (bela sacada, hein!), mas acho que poderia tecer comentários acerca do seu olhar. Oh, Céus, aquele olhar! Na verdade, poderia passar dias e dias mergulhado nos seus olhos, de um castanho-escuro tão profundo que se podia facilmente perder a noção de tempo e espaço só de fita-los por um momento. Pelo menos, é o que acontecia comigo...

Quando me viu, ela não hesitou. Chamou-me pelo nome e veio correndo ao meu encontro dar um forte abraço de urso no amigo há tempos não visto. Quando o lado direito de seu rosto tocou o meu, senti-me no paraíso por alguns instantes. Voltei ao meu mundinho real quando seus braços se desenlaçaram do meu pescoço e ela, medindo-me de alto a baixo, disse o quanto eu estava diferente e coisa-e-tal.

Conversamos por um tempo e fomos tomar um suco. Coisa simples. Mas ela continuava linda.

Não se trata de algo apenas físico. Ela é linda, eu juro, mas não é o que mais me chama a atenção nela. Talvez seja o jeito como ela olha para mim quando eu estou falando, o modo como ri das minhas piadas sem-graça, o jeito meigo de falar, os nossos interesses em comum, os nossos interesses incomuns, o tempo inacreditavelmente longo que ela leva para tomar um suco. Confesso que eu poderia ficar o dia inteiro assistindo ela tomar suco, sem dizer uma palavra, só vendo.

Falamos sobre coisas da vida e alguma coisa levou a conversa para o último filme que concorreria ao Oscar desse ano. Eu queria assistir. Ela também.

- Podíamos marcar de ir ver, então – eu disse.

- É verdade – ela respondeu, jogando os cabelos para trás, após o que eu a achei mais encantadora do que nunca. Na verdade, depois daquela jogada de cabelos, eu poderia casar com ela ali mesmo. Chamaríamos o garçom de testemunha e o homem que servia as coxinhas de pároco

- Quando a gente pode marcar? – ela perguntou. Impulsivamente, respondi:

- Agora! – esqueci-me completamente dos assuntos que precisava resolver naquele dia, afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de levar um anjo ao cinema. 

Consegui convencê-la. No caminho, conversamos sobre várias coisas: trabalho, família, mudanças, a beleza dela (esse assunto fui eu quem puxou, obviamente), leis, filmes, sucos e, claro, “Ele”.

É. Existe um “Ele”. Ela começou a namorá-lo havia pouco mais de um ano, um namoro à (muita) distância que eu achei (esperava deve ser o termo mais apropriado, mas não politicamente correto) não daria certo. Eu estava errado. Meu maior erro hoje foi decidir ver o quanto exatamente eu estava errado. Pois é, meus caros, eu resolvi arriscar. Resolvi ir contra os meus princípios e dei em cima do anjo. Puxa, como eu me senti culpado por estar fazendo aquilo, mas aquilo precisava ser feito (não sei por que, essa última frase me traz à memória um filme do Schwarzenegger). E o momento parecia ser o ideal. Ela estava estonteantemente linda, íamos ao cinema (embora, a essa altura, eu já nem lembrava qual o nome do filme que iríamos assistir) e chovia! Exatamente, chovia! Não sei se existe alguma razão lógica para isso, mas os principais encontros de amor nos filmes acontecem quando chove. Talvez seja porque a água caindo sobre nosso rosto passe uma sensação de bem-estar que nos remete aos áureos tempos da infância, no qual a pureza de nossos corações dava margem a sentimentos então ocultos, ou talvez seja porque os diretores perceberam que a chuva é uma ótima desculpa para fazer o biquinho do seio das atrizes se destacar na cena. 

Enfim, pegamos chuva até o metrô e... Deus do céu! Quando eu achava que seria humanamente impossível ela ficar mais bela do que já estava, eis que seus cabelos ficam molhados! Percebem a mágica? Chuva mais cabelos menos guarda-chuva é igual a cabelos molhados! E como ela ficou linda...

Chegamos ao cinema. Juro que usei algumas de minhas melhores frases, fiz os melhores elogios que conhecia (e inventei uns bem legais, também...), mas nada adiantou. Ela continuava falando dele.

Eu sei que não sou um cara que possa ser convidado para fazer o “depois” no comercial do produto de beleza, mas até que sou, digamos, apresentável. E sou um cara legal (até conto umas piadinhas de vez em quando...). Por que diabos ela insistia em ficar com “Ele”?

Apagaram-se as luzes e começou a sessão.

O filme era bom, tinha algumas frases de efeito, umas metáforas bem colocadas, enfim, mas era o que menos me importava naquele momento.

Dentro da sala escura do cinema, senti-me num Tribunal da Inquisição, sendo cruelmente torturado até que confessasse minhas mais obscuras heresias. Sempre que ela pegava a pipoca, que havia ficado comigo, encostava seu ombro no meu. Minha pulsação disparava. E, às vezes, ela comentava algumas cenas comigo, inclinando a cabeça e deixando nossos lábios a uns poucos centímetros de distância. Resultado: aumento vertiginoso dos batimentos cardíacos, com espasmos cerebrais e possibilidade de pancadas de chuva ao final da tarde. Alguém pode chamar um médico ou um exorcista, por favor?

E o que dizer dos seus risinhos contidos entre uma ou outra cena engraçada do filme?

“Fui eu! Fui eu quem estava mascando chiclete durante a pregação, Sr. Inquisidor! Eu confesso! Prendam-me, lancem-me na fogueira, mas parem com essa tortura!”

Algumas vezes, só de olhar para ela, suava feito uma tampa de marmita. Puxa! Como ela estava linda! Vez ou outra eu virava para o lado, ficando perdido por alguns momentos, só olhando para ela. Quando ela olhava de volta, voltava minha atenção ao filme. Senti calor, suei frio, fiquei com vontade de ir ao banheiro umas quatro ou cinco vezes; são muitas emoções para esse pobre forasteiro... 

De repente, toca o telefone. Droga! Quem deixa o telefone ligado em pleno cinema, assumindo o risco de atrapalhar o lazer de um sem-número de famílias que pagaram (caro) pelo direito de usufruir alguns momentos de paz e tranqüilidade, absortos por uma agradável película norte-americana? O telefone era dela. E ela atendeu! Era ele.

- Alô... Oi, amor... Estou no cinema... Não... Sim... Depois eu te ligo, amor... Não... É... Está bem... Te amo... Ah, que lindo... Eu também te amo muito, muito, muito (ela repetiu mais)... Tchau, um beijo! – ela disse.

Quem apagou as luzes de repente? Eu estava vendo a droga do filme, sabiam? Por que não vejo mais nada? E quem foi o infeliz que acertou com um bastão de beisebol a boca do meu estômago. Hum, aquela pipoca não deve ter me feito bem. De repente, sinto como se meus pés formigassem e, sem querer, acerto em cheio a poltrona da frente, dando um belo tranco no cara que estava sentado. Nem preciso dizer a cara de peixe macambúzio que o homem fez; quase me fuzilou com o olhar.

Precisei ir ao banheiro de novo. Fique tão consternado que fiz um talho no dedo ao abrir a porta, respingando sangue no chão. Deve haver alguma explicação científica para isso: pessoas normais devem talhar seus dedos em portas de banheiro toda vez que o mundo desaba sob seus pés... É, deve ser algo bem normal, mesmo.

Voltei à sala do suplício. Puxa, mas como ela estava linda! O brilho da tela simulava o luar realçando os contornos do seu rosto. Bendito espectro óptico! Certamente, os irmãos Lumière tinham essa cena em mente quando criaram todo o aparato que formou o cinema como conhecemos. Eles fizeram tudo aquilo para que hoje, ao voltar do banheiro com o dedo encharcado em sangue, eu pudesse contemplar o lindo rosto dela iluminado pela nitescência da tela do cinema.

O filme já estava chegando ao fim, assim como minhas esperanças.

Juro que fiquei com vontade de lhe roubar um beijo. Sei lá, só para ver o que aconteceria. Por muito pouco não me apareceram as figuras místicas do anjinho e do diabinho em ambos os ombros para dar conselhos. Mas acho que não poderia fazer isso.

Vejam bem, por mais que eu possa estar aquém dos padrões normais de sanidade, é verdade que eu jamais faria algo dessa natureza. Tenho uma concepção muito antiga (para não dizer antiquada) dos relacionamentos. Pode parecer absurdo, mas ainda acredito que o homem deve cortejar a dama, mandando flores, declamando belos versos, ao invés de chamá-la pra dançar o último “bonde das potrancudas” ou, quem sabe, “dar uns pegas lá no meu apê”. 

Seja como for, não lhe roubei o tão colimado beijo, apesar de ter sido nitidamente tentado a fazê-lo. 

Terminou o filme.

Depois de seguir pelo corredor errado, finalmente encontramos a saída. Ela riu. Aí já era demais! Quase lhe dei um bom sermão sobre os perigos de ficar rindo graciosamente para um ser tão vulnerável quanto eu naquele momento. A coisa começava a ficar grave. 

Rodamos uns minutos pelo shopping. Foi quando a conversa voltou para “Ele”... E, então, ela me falou de como ele é bonzinho, de como ele é gentil, de como ele é romântico; tudo isso sem saber que cada vez que ela pronunciava o nome dele era como se uma de minhas artérias houvesse sido subitamente arrancada, deixando órfão meu pobre coração quadrivalvular. Ela ainda me falou que eu precisava conhecê-lo (pasmem!), disse o quanto ele era isso, o quanto ele era aquilo, o quanto ele a ama, o quanto ela o ama...

Opa, alguém viu um coração mofado que acabou de explodir passando por aqui?

Foi isso mesmo que eu ouvi? Você o quê?

- Ai, você lembra quando eu disse que nós começamos a namorar? Pois é, quem diria que eu ia acabar amando ele tanto assim, né? 

Por Deus, mulher! Você bebeu alguma coisa? Acho que não, pois também dividimos a Coca-Cola. Por que dizer uma coisa dessas? Não seria mais fácil passarmos na loja de utensílios para o lar e comprarmos uma bela faca novinha em folha para ser enfiada no meu peito? Aposto que daria uma boa promoção: “Compre hoje a nova KNIFE-MAX 2000, ótima para desossar frangos, cortar legumes e extirpar corações de pobres apaixonados sem futuro”.

- Pois é – respondi – mas, então, você o ama mesmo, digo, a ponto de, sei lá, casar-se com ele...? – perguntei, àquela altura já ciente da resposta.

- Acho que sim – ela disse, dando um meio sorriso com os lábios. Agora me respondam: Que outra mulher no mundo conseguiria ficar tão graciosa apunhalando o coração de seu amigo?

Ela disse, por fim, que não saberia o que fazer sem ele...

Foi a gota d’água.

As palavras dela soaram como o último tilintar da grade quando o carcereiro fecha o preso em sua cela, ou como o som desesperado das almas amorfas chegando ao destino abissal que as enclausura para sempre na horrível masmorra que será sua morada eterna (uau!). Senti-me como o Luke Skywalker ao saber que o Darth Vader era seu pai. Ou como o filho do meu vizinho ao descobrir que o Papai Noel era, na verdade, seu tio disfarçado. Ou, ainda, como o pára-quedista em queda livre ao perceber que seu filho fez uma travessura: levou a bolsa com o pára-quedas para a escola e deixou a mochila com os deveres de casa para o papai.

Despedimo-nos com um abraço e um beijo no rosto e eu tomei a direção do metrô, de volta para minha vidinha de sempre. Ela partiu, linda.

Tomei o trem e segui, refletindo, até a estação na qual teria de fazer a baldeação. Trens são ótimos para refletir. As palavras começam a voar na mesma velocidade com que as pessoas se atropelam para entrar nos vagões mais vazios.

Pensei. Pensei. Pensei.

E, então, percebi o quão ridículo eu estava sendo...

Por mais que ela fosse deslumbrante, meiga, inteligente, carismática, romântica, graciosa, companheira, formosa, perspicaz, talentosa, atraente, criativa e linda, e eu estivesse completamente apaixonado por ela, isso não me dava o direito subjetivo ao seu amor.

Isso porque o amor não se compra numa feira, não se incute repentinamente, o amor simplesmente surge de onde menos se espera, imprevisivelmente, sorrateiramente.

Eu a amava, é verdade. Mas ela já amava outro. Descobri hoje que não teria quaisquer chances com ela e que, possivelmente, seria compelido a esquecê-la. Eu a via como a musa de meus sonhos. Ela me via como um bom amigo com quem você pode ir ao cinema de vez em quando. E só.

“Isso acontece” – disse o meu alter ego, tentando me confortar. Mandei-o à merda, apesar de concordar em parte. Pedi desculpas para mim mesmo. Acho que só precisava mandar alguém à merda...

Voltando ao pouco de lucidez que me sobrou, descobri que teria de me conformar, afinal de contas, o que eu poderia fazer? Contar tudo para ela e pôr em risco uma sólida amizade?

Ora, se ela o ama, talvez eu, como a amo mais do que à minha própria vida, deveria simplesmente desejar que ela fosse feliz, estando com quem estivesse...

Ah, qual é! Que papo furado é esse? Isso não passa de uma desculpa que criamos para tentar confortar a porcaria de dor que cresce a cada dia em nosso peito. É óbvio que ela só poderia ser feliz de verdade comigo! Está claro como água que somente eu posso fazer “Ela” realmente feliz, pois sou eu quem a ama de verdade! Será mesmo? Será que “Ele” não a ama, efetivamente? Será que “Ele”, por mais que doa admitir isso, não pode fazê-la tão feliz quanto (ou até mais do que) eu poderia? Sinceramente, não sei. A verdade é que, querendo ou não, terei de aprender a conviver com isso.

Eu confesso: invejo “Ele”. Mas não desejo que ele tenha uma morte cruel e dolorosa, de forma que pareça um acidente. Desejo apenas que ele faça TUDO, absolutamente TUDO o que estiver ao seu alcance para fazer dela a mulher mais feliz do mundo. É o que eu faria. É pelo que eu viveria. Aliás, é bom que ele faça isso mesmo, pois se, de qualquer modo, em qualquer lugar ou circunstância, ele a fizer sofrer por um ínfimo lapso de tempo, pode ter certeza de que eu estarei lá para, como diria o sábio Don Corleone, fazer a ele uma oferta irrecusável...

Mas, será mesmo que ele poderia escutar seus problemas sem resmungar? Ou poderia esperar ela naquela entrevista de emprego que ia demorar só “uns minutinhos” e que tomou quase uma tarde inteira? Será que ele poderia ficar observando ela tomar suco só pelo prazer que a cena lhe proporcionaria? Ou será que conseguiria percorrer com ela todas as liquidações do shopping center? Não sei... 

Sei apenas que ele não pode vê-la como eu a vejo nesse momento. Agora, enquanto fecho os meus olhos, eu a estou vendo de uma forma tão bela e pura que nenhum outro homem poderia fazer igual. Eu a vejo como um verdadeiro anjo imaculado, o qual com um sorriso é capaz de irradiar...

“Estação Sé. Desembarque pelo lado esquerdo do trem” – disse a voz metálica.

Cruzei a plataforma central e subi pelas escadas rolantes para pegar o trem da outra linha. Opa, uma pontada no peito? O que seria isso? O que quer que fosse, estava doendo um bocado...

Acho que é isso que nos torna humanos. Nada daquilo de polegares opositores, organização em sociedade ou comunicação falada. O que nos torna verdadeiramente humanos é a dor. E não digo a dor física, pois esta até o mais irracional dos animais sente. Estou falando da dor que está doendo agora. É a dor de dizer adeus, sem se despedir de fato. A dor de perder algo que jamais se teve. A dor de uma experiência não vivida. A dor de uma saudade por algo que jamais partiu, simplesmente porque jamais chegou. Acho que é o que se pode chamar de dor do coração, somente sentida por animais como nós, que amam e, vez ou outra, dão a sorte de serem amados. 

Cheguei atrasado ao culto. Senti-me culpado de novo, mas a reunião foi excelente. A pregação serviu para desanuviar a cabeça e lembrar sempre de olhar para frente. Afinal, não se sabe onde o amor vai estar te esperando da próxima vez... Quem sabe...

Cheguei em casa, tomei banho, comi alguma coisa e cá estou! Sentado em frente ao micro, usando-o como meu terapeuta eletrônico. Acho que vou vasculhar amanhã a internet para ver se isso pode ser o sintoma inicial de alguma mania sociopata... Afinal, quem é imbecil a ponto de desabafar para uma máquina como se esta fosse um psicólogo? Não é verdade, Computador?

O quê? O que você disse?

Bom, preciso mesmo terminar de escrever isso agora...

Tive a impressão de que o computador me respondeu.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Veneração




Ah, se de todas as rosas se pudesse colher o perfume, ou de todas as campânulas a formosura, ainda assim, tal miscelânia não se poderia comparar à beleza de minha musa.



Os cabelos dela são, na verdade, finos fios de ouro banhados pelo próprio Olimpo em rios de luz e emolduram uma face tão linda que não se ousa, após contemplá-la, questionar a existência da Divindade. Os olhos de minha musa são tão profundos que não raras vezes me apanham por horas a fio. Sua pele é suave como a algodão recém-colhido, porém, quente comom a areia que se avoluma sob os pés descalços.



De qual sorte de palavras a posso adjetivar para que de mim se lembre ? Pois, ainda que mudo me torne e minha voz não tremule ao pronunciar seu nome, eis que meu silêncio se habilitará para dizer que a amo.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Se


Se você tivesse ido àquela festa, estaria linda. Certamente, todos os olhares seriam dirigidos a você e todas as luzes rapidamente seriam deslocadas em sua direção. O vestido azul iria realçar o brilho anil dos seus olhos e os seus longos e dourados cabelos, soltos em espaldas esculpidas por mãos divinas, balançariam quando eu a jogasse ao ritmo da dança que envolvia os pares de casais apaixonados. Sim, e todos os presentes me invejariam por ter em meus braços a mais bela mulher que já existiu. E, então, eu sorriria para você, agradecendo aos Céus por terem me confiado tamanha preciosidade. Mas isso apenas se você tivesse ido àquela festa...

Se você tivesse me acompanhado naquela homenagem, certamente eu seria o mais feliz homem sobre a Terra. Minhas mãos trêmulas ao receber o prestigiado prêmio estariam ainda mais vacilantes e o frio que me percorria a espinha ao aguardar a pronúncia do meu nome se transformaria em um gélido e apavorante soprar de ansiedade. Ah, como eu teria adorado isso! Saber que você estava na platéia faria com que todas as centenas e milhares de espectadores evaporassem e somente a sua atenção importasse. Ao invés das inúmeras palavras de agradecimento que tive de pronunciar, meu discurso seria simples e objetivo: “A razão de tudo isso é o amor que sinto por aquela mulher”. E esse amor, por si só, valeria mais do que qualquer tributo ou honradez que me dirigissem. Sentir-me-ia o mais nobre dos mortais, o mais excelso humano, sabendo que, ao final de tudo aquilo, nos seus braços eu encontraria o mais valioso de todos os prêmios. Mas isso apenas se você tivesse ido àquela homenagem...

Se você tivesse aceitado o meu convite, eu poderia dormir tão tranqüilo quanto a mais angelical criança. Não precisaria jantar tendo como companhia o vento ou como parceira de prosa apenas a luz do luar a entrar pela janela aberta. A comida teria tido sabor e a bebida teria me saciado. Embora, soubesse eu, não teria sido a comida ou a bebida que me fartara, mas o encontro de meus olhos com os seus. A um momento, eu poderia tocar sua mão sobre a mesa ou limpar o canto de seus lábios e estaria mais realizado que o mais rico dos homens. Por fim, eu poderia lhe render as palavras que ensaiei ao longo do dia ou poderia finalmente entregar a rosa que escolhi dentre as mais belas flores que pude encontrar. Mas isso apenas se você tivesse aceitado o meu convite...

Se você tivesse ido comigo, eu poderia apresentá-la aos meus amigos e eles veriam quão abençoado eu fui. Você, certamente, estaria deslumbrante e eu teria ciúmes do rapaz da mesa ao lado que perguntaria ao garçom se você vinha com freqüência àquele lugar. Durante a conversa, um amigo contaria as piores e mais sem-graça piadas que alguém já ouviu e todos nós riríamos com ele. Nesse momento, eu pararia de rir, pois estaria demasiado inquieto vendo o espetáculo do seu sorriso. Ele me arrebataria por alguns momentos daquele lugar e meus amigos teriam que me chamar a atenção após algum tempo, com o que eu ficaria aturdido e ligeiramente constrangido, fazendo você ficar enrubescida. E eu me apaixonaria ainda mais. Mas isso apenas se você tivesse ido comigo...

Entretanto, você não estava lá. Você não estava naquela festa, nem tampouco naquela homenagem. Você também não aceitou meu convite para jantar ou foi comigo e meus amigos rir em um lugar qualquer. E exatamente isso faz com que toda a nossa história comece com um “se”, uma incógnita, uma variável ignota. A única presença que realmente sinto é a que emana da sua ausência. Uma cadeira vazia. Um prato intocado. Uma rosa que murcha sobre a penteadeira, aguardando à míngua o destino que lhe prometeram: ser entregue a alguém por quem se nutre um profundo e imensurável amor. É essa a razão de existirem as rosas, não? Porém esta rosa, a sua rosa, não cumprirá seu mister poético. Lamentavelmente, sua flor penderá de tristeza e suas pétalas cairão dia a dia, como um calendário perfeito a contar os dias de sua ausência.

Somos seres humanos, gregários por natureza. Vivemos em sociedade porque não conseguimos – ou não queremos – viver isolados. Procuramos respostas complexas para a questão filosófica mais profunda de todas: por que existimos? Talvez, tenhamos passado tanto tempo buscando soluções igualmente complexas que nos esquecemos de atentar para aquela que há milhares de anos está à nossa frente: o amor. Quem sabe não é o amor a resposta que tanto almejávamos? Afinal, não é isso que nos impulsiona a querer crescer, a querer nos transformar em algo melhor do que somos? Será que toda a nossa rotina diária, nossos estudos, nossos compromissos inadiáveis, nossos afazeres intermináveis não são feitos e refeitos para permitir que possamos desfrutar do melhor da vida com as pessoas que amamos?

Sinto sua ausência perfurar minha alma como uma afiada adaga. Mais que o vazio à minha frente, dói-me a sua indiferença, pois ela demonstra que, não bastasse a iminente morte da rosa diante de mim, sua dona não a quer, dando de ombros ao trágico fim da condenada flor. Ora, que futuro há de ter um amor indiferente? Soa risível a pergunta, pois traz dois elementos antagônicos em sua essência. Amor e indiferença não podem se atrelar, pois são opostos entre si. Onde há amor, não pode haver indiferença, e onde há indiferença não pode haver amor. Assim, não haverá futuro, tão certo como não há presente ou nunca houve passado em um amor indiferente. Ele simplesmente nunca existiu.

Hoje, percebo que todas as juras e promessas de amor tecidas por seus lábios foram palavras vazias, despidas de conteúdo. Enganei-me por pensar que você estaria sempre ao meu lado, enganei-me por achar que você me amava mais que tudo, enganei-me por supor que você me tinha como alguém de notável importância. Ao contrário, descobri – da forma mais dolorosa – que sou apenas um item em sua rotina; item esse que, dia a dia, decresceu em relevância na ordem do seu coração. E é exatamente isso que dói. Aflige-me você, hoje, não dar a mínima para um sentimento que, até poucos dias atrás, fora vocacionado por sua boca como a mais bela coisa que já lhe acontecera.

Se você se importasse, dar-lhe-ia o mais puro e genuíno sentimento que pode brotar no coração de um homem. Sim, pois tenho – e sempre terei – por você um amor que dificilmente alguém mais poderia experimentar. Nem eu o poderia dar a outra pessoa, nem você receber de outro alguém. É uma pena que todo esse amor tenha que ser dilacerado pelo tempo, tal qual a murcha rosa enegrecida sobre a cômoda. Gostaria de expandi-lo aos confins do mundo, ao invés de sufocá-lo em meu coração. Queria que todo o universo fosse cúmplice desse sentimento, mas os astros do firmamento não podem compartilhar de algo que não transcende os limites do possível e confortável. Eles bem que gostariam, pois não tenho dúvidas que o propósito divino para nossas vidas passa por esse excelso gostar. E todo esse amor seria seu. Mas tudo isso apenas se você se importasse...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Índigo


Teus olhos são banhados de um veneno anil que entorpece até o último músculo de meu corpo. Que mistura penetrante é essa que advém do encontro de teu olhar com o sol? Certamente não o sei responder. Ó, querida minha, quão belo é o espetáculo que teu par de pérolas azuis exibem quando, com a inocência de um infante, examinam-me distraído! Inda que os mistérios da Divindade eu conhecesse, não seria tão sábio que pudesse auscultar os segredos que o Excelso deu a tuas duas safiras cintilantes.

Quisera eu poder contemplar-te dia e noite! Qual um pássaro canoro romperia o dia a entronizar líricas celestiais à tua varanda e, até o ocaso, renderia a ti as mais belas notas que a natureza fora capaz de compor. Ao vir o crepúsculo, tornar-me-ia teu rouxinol e, a cada avançar da Lua, maiores seriam as minhas melodias a embalar teu sono. E, quando tu finalmente adormecesses, amada minha, seria tua sentinela para guardar teus sonhos mais secretos.

Aliás, quem me dera saber aonde te levam os sonhos! Gostaria de adentrar tua mente enquanto dormes e, junto a ti, percorrer os insondáveis caminhos traçados por teus desejos. Será que sonhas comigo? Que tolo! Somente um homem perdido em suas próprias paixões ousaria perguntar tal coisa. Deveras, não o posso evitar. Sou aquele de quem um dia te falaram “haverá um que te amará mais que tudo”. Fui preparado para ti e para ninguém mais, pois sem mim ou ti não há completude no outro. Inútil para mim seria procurar em braços estranhos o propósito do amor, pois ninguém há que me arrebate os sentidos com um olhar ou que me ofegue a respiração com um somente toque dos lábios.

Como ta descreverei, amada minha? Que palavras usarei para conformar as parcas linhas que escrevo à mais fiel descrição possível de teus indeléveis contornos? Cada vez que tento – inutilmente – retratar em letras tua inescrutável beleza, sinto-me tão impotente quanto o menor dos peixes ante a vastidão do oceano. Contudo, mesmo assim, ousarei uma vez mais testar minhas metáforas e colher do baú de meu espírito apaixonado algumas palavras que te possam descrever, amor meu. É verdade que tu, dona de minhas quimeras, ostentas o mais encantador sorriso que o sol já se atreveu banhar com sua luz, fazendo tudo e todos se aquietarem para ver-te sorrir. Teus olhos são pequeninos diamantes de índigo engastados em madrepérolas raras, enlevando tantos quantos sejam teus observadores. Até a lua aprimora seu espetáculo noturno apenas para atrair teu olhar. Safiras reluzentes que trazem inveja a Netuno! Assim são teus olhos, amada minha. Teus cabelos expressam a tecelagem perfeita de finos fios de ouro e veludo e contornam com maestria uma face tão bela quanto só o poderiam ser as mais dedicadas obras do Criador. Teus lábios são rubros como os grandes leques de corais ou como as rosas que apanho para ti, porém são suaves como o algodão colhido no primeiro amanhecer de julho. Tua pele é alva como o luar e quente como o verão, mas também é macia como o pêssego que no outono enche as planícies com o aroma de sua doçura. Teu corpo é todo feito de paixão e tudo que há em ti desperta em mim os desejos de um adolescente. Fiz-me recluso teu; mancípio e vassalo de um amor que até então desconhecia e do qual hoje não ouso esquivar.

Entretanto, densas trevas pairam sobre mim quando penso em ti. “Não podes dar morada a esse amor”, é o que dizem. “O universo todo conspira em teu desfavor”, é o adágio com que me procuram esmorecer. Inútil esforço! Intentam me aprisionar nas masmorras de meus próprios sonhos. Tolos! Mal sabem que com isso tão-somente mais me atrelam a ti. De nada valem os ideais que me tentam infirmar; são valores desprovidos de conteúdo, pois lhes falta a substância do amor. Qual ideologia humana fará sucumbir o sentimento que pulsa em mim ou que compêndio dogmático poderá podar os frutos de meu afeto? Contudo, ainda assim, fizeram em pedaços as trovas, as canções e os poemas a bem de um ideal humano que, como tal, jamais poderá compreender os mistérios do amor, pois este aflui do que é divino. Danem-se todos!

Nunca desistirei de ti. Por mais que irrompam exércitos descomunais diante de mim ou ainda que cavalguem mil tropas em minha direção, não hesitarei. Para cada tijolo que for construído com o intento de me separar de ti, erguerei quatro na edificação onde guardo oculta a chave do meu amor. Descer até o inferno e regressar por ti? Irei sem pestanejar. Renegar os auspícios de minha liberdade para te entregar um coração em que pulsa apenas o teu nome? É-me tarefa fácil. Não coxearei diante da tormenta, nem trepidarei a sobrancelha perante o mau agouro. Por ti – e somente por ti – fincarei nos confins da Terra a insígnia que me foi entregue pela própria Divindade com apenas uma admoestação: cuide dela com a própria vida. Desnecessário pedido. Cuido da dona de meus sonhos com a devoção que só se encontra nos arrebatados pelo amor ou nos lunáticos. E se a morte chegar antes que eu te veja regressar aos meus braços, então que venha o pestilento fim! Certamente, melhores me serão as vivas luzes do além que a escuridão mortificada do viver sem ti.

Quando decido adormecer, é a ti que minha consciência se achega por último antes de embarcar rumo ao universo dos sonhos. E, ao acordar, o primeiro raio de luz a ganhar meus olhos não é tão veloz quanto a tua imagem em meu pensamento. Passei dias e dias brigando comigo mesmo, questionando minha sanidade e teimando contra meus temores. Ousei perguntar: “Senhor, que é isso?”, aflito pela resposta do Alto e, talvez, pela confirmação de que me precipitei por um túnel de loucura. “É o amor que bateu à sua porta, filho meu”, ouço tão claro em minha mente que já se torna difícil distinguir se estou desperto ou em devaneio. Deveras, isso pouco importa. Contigo, amada minha, qualquer momento acordado se transmuda em sonho e qualquer sonho é tangível como a realidade diante de meus olhos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Apenas Um Desabafo


O amor é, sem dúvida, a mais besta invenção da humanidade. Nenhuma enfermidade é capaz de causar tamanha debilidade em um ser humano e nenhuma força conhecida pode imprimir feições tão abobalhadas quanto aquelas vistas no rosto de um pobre apaixonado. Por que aceitamos passivamente que esse vilão silencioso nos ataque e, sem reação de nossa parte, roube-nos o sono, a fome e os pensamentos?


Coisa complicada e estranha! Mais complicada que as letras das músicas do Djavan e mais estranha que os penteados da Elke Maravilha! Não é possível entender o que se passa nas entrelinhas do amor, de modo que somos subjugados por algo que não conhecemos inteiramente. É como estar defecando no impoluto resguardo do lar e, de repente, ser abatido por uma machadinha indígena que voou pela janela do banheiro. Você não esperava a porcaria da machadinha, assim como não esperava que o amor colocasse suas garras em você! E o pior de tudo: sem pedir sua permissão! Ele chega sem aviso prévio.


- Eh, com licença... O senhor é o Sr. Alves? Pois bem, eu sou o Amor e vim avisá-lo que hoje, na fila do supermercado, o senhor se apaixonará pela moça que vai estar logo à sua frente, carregando um litro de leite e uma embalagem de peixe congelado.


Não! Não há nada disso! Se pelo menos assim fosse, o pobre Sr. Alves poderia aparar os pêlos do nariz ou colocar uma camisa mais descontraída antes de ir ao supermercado, mas não! Não é assim! E lá vai o Sr. Alves, vestindo uma camisa verde-vômito comprada na liquidação da caridade e com o nariz parecendo um escovão... Resultado: não há a menor chance da moça da posta de peixe olhar para o pobre homem, razão pela qual ele passará dias e dias pensando em filés de merluza e coalhada. Pobre coitado!


O amor é um brincalhão! Escolhe a hora mais inapropriada para aparecer. No meu caso, ele resolveu aparecer bem nos meses que antecedem a entrega do trabalho de conclusão de curso na faculdade. Dúvida cruel: concentro-me nos olhos azulados de minha deusa imaculada ou na porcaria da natureza filosófica da sanção penal? Ultimamente, os olhos estão vencendo, e com vantagem!


Também, não é para menos: ela, a moça que disputa minha mente com a pilha de livros que peguei da biblioteca, é dona do mais gracioso sorriso que meus olhos já viram. Quando seus lábios se abrem, deixando duas covinhas angelicais nas bochechas, parece-me que todo o universo se aquieta para contemplar aquela visão. De fato, pois não ouço ou percebo mais nada que seja estranho àquele sorriso divinamente escultado. E o que posso falar de seus olhos? Tão azuis e brilhantes quanto os lagos que riscam a terra sob o sol. Sim, assim são os olhos de minha amada, banhados em índigo e escondidos por detrás de pequenas janelas vitrais, como as peças raras dos museus. Duas perfeitas réplicas de Netuno que me absorvem tal qual um menino maravilhado ao contemplar a imensidão do Universo. Sua pele é tão branca e macia como a neve que brinca nos rostos das crianças quando chega o inverno, mas seu toque é tão quente quanto o roçar da lã felpuda. Seus lábios são vermelhos, como vermelha é a lava que corre dos vulcões ou como os grandes leques de corais, mas também são suaves como nuvens num céu de brigadeiro. Os cabelos dela têm a cor das amêndoas algarvienses recém-colhidas banhadas no mel e ondulam por seu rosto como a maré a emoldurar as praias. Tem um rosto tão meigo e delicado quanto o de uma criança, mas o corpo esbelto e maduro de uma mulher pronta. Por óbvio, ela atrai tantos olhares quantos sejam os presentes onde passa, então, por que o meu haveria de ser o mais especial? Por que o meu olhar deveria ser aquele no qual ela aportaria seus belos olhos azulados e por que haveria de ser no meu abraço que ela encontraria o acalento almejado?


Vêem só? É isso que o amor nos faz! Este vagabundo sem vergonha nos faz inventar metáforas ultra-criativas e perguntar coisas sem o menos sentido para, com isso, afundar-nos ainda mais nesse lamaçal embebido de alfazema que é a paixão...


Prova disso é que estou sentado há várias horas na frente do computador e tudo o que meus dedos conseguem digitar são as palavras que se lêem nesse texto. Nada de monografia... Mas também, para quê? Para que me formar se meu futuro sem ela não vale nem uma moeda furada por um balaço? Que mamãe não me ouça!


Enfim, o que eu quero dizer nas linhas desse texto é que não há nada mais estranho do que esse tal de amor! Penso que o amor nada mais é do que um subterfúgio que a mente humana encontrou para fazer a vida valer a pena. Puxa, se isso for verdade, então, que triste é viver sem amar, não?


Mais estranho do que o próprio amor é o momento em que ele acontece. Digo, alguém saberia responder qual o exato momento em que esse vilão devorador de corações se apossou de sua frágil alma? Seria possível cronometrar o instante em que nos tornamos reféns do amor?


- Calma, só um minuto... Vai acontecer a qualquer momento, estou dizendo.


- Você tem certeza?


- Claro que tenho. Alguma vez já falhei com esse troço? Olha ele lá... Ela vai passar daqui a pouco e trocar duas palavras com ele... Já preparei tudo, pode confiar.


- Veja lá, hein!


- Confie em mim. Olha lá... Aí vem ela. Vamos ver... Cinco... Quatro... Três... Dois... Um... Pronto! Olha lá, não falei! Cara de peixe abestalhado... bem na hora, não?


- Puxa! Você está ficando realmente bom nisso!


O amor é, por vezes, um herói que nos salva da solidão, ou um vilão, que nos afunda num estado catatônico de autocomiseração. “Por que ela não me quer? Por que ela não me ama?”. Sei lá! O amor não se incute à força, não se impinge à espada. Deve frutificar de forma serena e silente, como a semente que germina perante o longânimo céu.


E, por falar em céu, lembro-me mais uma vez dos olhos banhados em anil que me cativam sem escape. Resignado aos devaneios que estão prestes a recomeçar, tomo uma sábia decisão: amanhã continuo a monografia...